Pesquisa do IBGE revela queda da desigualdade entre ricos e pobres

Por Fabiana Ribeiro, Cássia Almeida e João Guedes – O Globo

A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE,  mostrou que a distância que separa os ricos e pobres no Brasil ficou menor também quando se olha os gastos das famílias brasileiras. Outros levantamentos já haviam mostrado uma queda na desigualdade de renda.

Agora, a POF constatou uma melhora na distribuição dos gastos familiares. Em 2002/2003, os 10% mais ricos tinham despesa 10,1 vezes superior aos 40% mais pobres. Em 2008/2009, essa distância caiu para 9,6 vezes.

A desigualdade caiu também entre os menos e mais instruídos, mas aumentou entre homens e mulheres. Para especialistas, a queda na desigualdade promete ser sustentável por causa, especialmente, de avanços no mercado de trabalho e nos programas de transferência de renda.

Segundo Eduardo Nunes, presidente do IBGE, o nível de desigualdade, apesar do recuo, não é compatível com o grau de desenvolvimento econômico.

— Comparando com outros países com padrão de desenvolvimento equivalente ao nosso, não vamos encontrar a desigualdade que temos no Brasil. É preciso fazer mais do que tem sido feito — disse.

Quando se olha os rendimentos apurados pela POF, também houve queda na desigualdade.

Nos cálculos de Marcelo Neri, economista da Fundação Getulio Vargas, o Índice de Gini de todas as rendas caiu de 0,591 para 0,561 entre as duas POFs — quanto mais perto de 1, mais desigual.

— O bolo cresceu, com redução de desigualdade. Trata-se de um momento único, já que na fase do milagre econômico, a desigualdade não caiu — disse Neri, acrescentando que, de 2003 a 2008, 25,9 milhões de pessoas foram incorporadas à classe C. — A POF deixou claro que pessoas pobres passaram a ter mais renda. A queda da desigualdade é sustentável, mas os problemas sociais são altos.

Região Sul registra maior recuo da desigualdade

A maior queda na desigualdade foi registrada no Sul do país, onde os mais ricos gastam 6,9 vezes mais do que os mais pobres — contra 8 vezes no levantamento anterior. O casal Diego Rodrigues, de 27 anos, e Cláudia Machado, 23, trabalham numa churrascaria na zona leste de Porto Alegre e tem uma renda média de dois salários mínimos.

Os dois trocaram o preparo de refeições em casa por pratos prontos, mais caros. Além disso, o casal também aproveitou o aumento na renda para equipar a casa onde moram. Depois de uma televisão e de um aparelho de DVD novos, eles agora planejam trocar máquina de lavar, geladeira e fogão.

Por escolaridade, a diferença no consumo diminuiu à metade.

Seis anos antes, nos lares onde a pessoa de referência tinha 11 anos ou mais de estudo, a despesa era 400% superior à de famílias onde o chefe era analfabeto.

Essa diferença caiu para 207%. Para Sergei Soares, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o prêmio para quem conseguiu completar o ensino médio diminuiu pelo aumento da oferta de educação.

— Uma das explicações é que, com a universalização do acesso à educação, houve queda da qualidade. Outra justificativa é que o mercado de trabalho é desigual e isso aparece de alguma maneira nas estatísticas.

Mesmo assim, a diferença dos ganhos entre as famílias que têm algum componente formado na faculdade e as que não têm diminuiu: em 2003 chegava a 190% e baixou agora para 160%.

Quando há dois membros formadas, a distância cresce. Passa para 390%, mas em 2003 chegava a 430%. Essa redução reflete o aumento do acesso à universidade no Brasil. Há seis anos, havia um membro formado em 16% das famílias. Essa parcela subiu para 24%.

Na avaliação de Naércio Menezes, professor de economia do Insper (antigo Ibmec SP), o maior acesso à educação contribuiu para reduzir os níveis de desigualdade. Em 2001, apenas 10% dos jovens de 22 anos chegavam ao ensino superior. Em 2008, subiu para 19%.

Já entre mulheres e homens, a desigualdade nos gastos subiu de 15% para 20% em seis anos, contrariando as pesquisas que mostram que os salários de mulheres e homens vêm se aproximando.

Para Soares, usar as despesas na avaliação da desigualdade de gênero pode incluir variáveis que não são relacionadas só ao mercado de trabalho. No mercado de trabalho, a diferença vem caindo.

O IBGE constatou aumento na desigualdade entre pretos e brancos, mas queda na distância entre brancos e pardos. Mas, segundo Soares, o ideal é comparar brancos e não-brancos.

Pesquisa compara dois momentos de crise
Cássia Almeida, Fabiana Ribeiro e Luciana Rodrigues

No levantamento recente, entretanto, turbulência externa não conteve avanço da renda

Os dois últimos levantamentos feitos pelo IBGE sobre os gastos das famílias foram a campo em momentos particularmente difíceis para a economia brasileira. A POF anterior, realizada entre os meses de julho de 2002 e junho de 2003, encontrou um país estagnado (a economia cresceu só 1,1% em 2003), com inflação em alta e que tentava se organizar após as turbulências financeiras pré-eleitorais, quando o dólar chegou a bater R$ 3,99. Ainda em 2002: a taxa de desemprego era de 9,2% e os brasileiros amargaram uma perda de renda de 2,6%.

Desta vez, o período de investigação da POF — maio de 2008 a maio de 2009 — coincidiu com a maior crise internacional desde a Grande Depressão (1929), que levou o país a uma recessão de 0,2% em 2009, no primeiro recuo da economia desde o Plano Collor, em 1992. Mas, antes de os efeitos da crise externa se abaterem de forma mais intensa sobre a economia brasileira, o desemprego médio do país em 2008 recuara para 7,2%, e os trabalhadores obtiveram, naquele ano, um ganho de renda de 1,7%, no quarto ano seguido de avanços nos rendimentos.

— As comparações são entre duas crises. Mas, na POF mais recente, apesar de terminar numa outra crise, é um período muito bom, em que a crise externa não impediu avanços na distribuição de renda — diz Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas.

A inflação também fez diferença.

Entre julho de 2002 e junho de 2003, os preços da economia subiram em média 16,3%. Na POF mais recente, a alta da inflação foi significativamente menor — 5,4%.

‘Biênio 2008/2009 foi pior que 2002/2003‘

Para Marcia Quintslr, coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, que gerenciou a POF, a melhoria na percepção das famílias brasileiras, observada no último levantamento, reflete a situação mais desfavorável de 2003, quando a taxa de desemprego chegou a superar os 10%: — Naquele ano, o rendimento era menor (R$ 888, contra R$ 1.041 em 2008, último dado disponível). A pesquisa está refletindo a situação pior da economia naquela época.

Para Fernando Gaiger Silveira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o biênio 2008/2009 foi particularmente ruim e, em termos relativos, pior do que o período 2002/2003.

— Os anos de 2002 e 2003 foram de crise, mas não tão piores do que o cenário econômico desse período (início da década 2000). Já o biênio 2008/2009 foi absolutamente atípico dentro de um período de bonança para a economia brasileira — diz Gaiger.

Segundo o IBGE, o fato de o período entre as duas pesquisas praticamente coincidir com os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se explica pelas dificuldades orçamentárias enfrentadas para realizar a POF.

Intervalo mínimo entre as pesquisas deve ser de 5 anos

De acordo com Marcia Quintslr, as pesquisas de consumo devem ser realizadas, no mínimo, com um intervalo de cinco anos, seguindo as recomendações internacionais: — O nosso esforço foi para realizar a pesquisa nesse intervalo de cinco anos e, assim, perseguir a recomendação internacional.

Não conseguimos, por um ajuste de orçamento e de recursos. Mas estamos trabalhando para realizar a POF num modelo simplificado e, daqui a cinco anos, novamente nesse formato maior.

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