Michel Temer: vice será escolhido em conversas do PMDB com o PT e Dilma

O Globo de quarta-feira, 23 de dezembro, traz entrevista com o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer. Leia abaixo, a conversa de Temer com o jornalista Jorge Bastos Moreno.

Por que o PMDB reagiu de forma até indignada à sugestão do presidente Lula da lista tríplice de candidatos a vice da Dilma Rousseff?

MICHEL TEMER: Foi uma simples reação reveladora da autonomia do partido. É evidente que, no instante que isso sugere uma fórmula para o PMDB escolher o candidato, a reação foi natural, porque essas coisas se resolvem por meio do diálogo. E, como a ideia é a escolha de um companheiro de chapa para a ministra Dilma, que poderá vir a ser candidata — se já não é candidata — ao cargo de presidente, evidentemente que essas questões se decidem por conversas entre os dois partidos, o PT e o PMDB.

O senhor ficou magoado porque seu nome sempre foi apontado como o preferencial para vice?

TEMER: Em primeiro lugar, meu nome foi muito alardeado como candidato a vice, embora — faço, desde já, uma observação — eu jamais tenha me colocado como vice. Ao contrário, sempre disse que vice é circunstância política, não é candidatura. Ocorreu, entretanto, que, num dado momento, houve um diálogo, em Brasília, em que supostamente tentavam me incriminar. E a fala do presidente — dizendo que o ideal seria uma lista tríplice, que foi uma fala acidental, não proposital — fez com que a imprensa relacionasse o episódio Brasília com o episódio da lista tríplice. A meu ver, o presidente da República jamais teve essa intenção.

O próprio presidente Lula já chegou a falar para o senhor que o senhor seria o candidato a vice?

TEMER: Quando tivemos uma primeira conversa, isso há vários meses, sobre a possibilidade da aliança, ele — talvez muito delicadamente — insinuou que eu poderia ser o vice, que o Hélio Costa poderia ser o vice, enfim, mencionou nomes que poderiam ocupar essa posição. Ao que logo eu disse: presidente, primeiro vamos fechar essa aliança para depois verificarmos qual é o nome que mais soma para a candidata. Deixei isso muito claro naquela ocasião.

Portanto, o presidente jamais chegou a dizer “você será o vice”, mas insinuou nomes, entre E a candidata chegou a falar com o senhor sobre isso?

TEMER: Conversamos muito sobre alianças, não chegamos a conversar sobre vice-presidência. Aliás, quando se tocou nesse assunto, mais uma vez, minha fala foi na mesma direção. Como estamos dialogando, será do diálogo entre PT e PMDB, e, naturalmente, entre a candidata e o PMDB, nessa circunstância, que se dará a escolha do vice.

O ingresso de Henrique Meirelles no PMDB, com ele sendo guindado à condição de candidato a candidato a vice, complicou o processo?

TEMER: Não, pelo seguinte: o Meirelles, quando entrou no PMDB, ele o fez com a intenção de ser candidato ao Senado por Goiás. Foi essa a conversa que ele teve comigo e com o prefeito Íris Rezende. Evidentemente, ele é um ótimo nome. O Meirelles é um nome que pode ocupar qualquer posição no país, não tenho a menor dúvida disso. Qualquer cargo que lhe seja destinado, ou qualquer função que lhe seja atribuída, ele os desempenhará com muita sabedoria.

Estão falando no Ciro Gomes, de outro partido. Se o Ciro for escolhido candidato, aí acaba a razão de ser dessa aliança do PMDB com o PT?

TEMER: Acho que, no pré-compromisso firmado, fruto até de uma conversa de vários meses atrás com o presidente Lula e com a candidata Dilma, ficou estabelecido que a vaga seria do PMDB, não de alguém do PMDB, mas do PMDB. Esse é um ponto. O segundo ponto foi de natureza programática, ou seja, o PMDB quer participar, e participar ativamente, da elaboração programática do plano de governo, como quer também participar do plano de campanha. Isso tudo ficou ajustado com o presidente do PT, Ricardo Berzoini. Converteuse em um documento escrito que foi firmado num jantar com a presença do presidente Lula e de todas as lideranças do PT e do PMDB.

Mas se o PMDB, na convenção nacional, decidir por candidatura própria, acabam-se os problemas da aliança: não haverá mais aliança.

TEMER: É, esboça-se a candidatura do governador Roberto Requião. E, mesmo aqui na convenção do PMDB de São Paulo, onde eu e o (Orestes) Quércia dividimos os delegados à convenção nacional — eu, na verdade, fiquei com nove delegados e ele ficou com 11 dos 20 delegados à convenção nacional —, essa é uma das teses. Evidentemente, há a tese de apoio à candidatura (José) Serra, e há a tese, que eu acredito seja majoritária, de apoio à candidatura do governo, à candidatura do PT. Agora, isso tudo será decidido na convenção. O que precisamos, neste entretempo, entre agora e a convenção nacional, é ajustar a questão dos estados da federação brasileira. Se houver acordos nos estados, acho que facilita muito a votação na convenção nacional.

Dessas hipóteses levantadas, excetuando-se naturalmente a aliança com o PT, que é uma coisa quase majoritária, se tivermos que apostar numa dessas outras duas alternativas, candidatura própria ou apoio a José Serra, qual o senhor acha que tem mais força no partido?

TEMER: Bom, há sempre um sentimento que chamo de patriótico do PMDB, que é a ideia da candidatura própria. Mas ainda é muito cedo para definir algum rumo nessa direção: ou candidatura própria ou apoio a outros candidatos. Quando falamos desse pré-compromisso, foi porque temos um número razoável de ministérios no governo, e não seria ético que o PMDB viesse a romper com o governo no ano que vem, em março ou abril, para o lançamento de candidatura. Daí porque essas coisas têm que se definir… começaram, melhor dizendo, a se resolver de um mês para cá, a fim de que, no início do ano, estejam inteiramente definidas. Não há condição de levar mais para diante essas definições.

A sua relação pessoal com o governador José Serra também não gera um clima de desconfiança dentro do PT?

TEMER: Acho que gera… Até estou de acordo com a sua pergunta. Eu sou velho amigo do José Serra, desde os tempos de estudante. Agora, uma coisa é uma amizade pessoal, que nós enaltecemos, tanto ele como eu, e outra coisa é a relação política, especialmente político-partidária. Então, sabemos distinguir muito bem essas duas posições. A relação hoje com o PT é políticopartidária. Nós ajudamos a eleger o Arlindo Chinaglia para a presidência da Câmara. O PT, ao lado de outros tantos partidos, mais 14 partidos, me ajudou, ao lado deles, a me eleger presidente da Câmara.

O senhor sente — para a gente usar uma linguagem popular — que está sendo rifado dentro do PT?

TEMER: É…

O senhor sente isso?

TEMER: Na verdade, se há uma intenção, ela é equivocada porque, volto a dizer, jamais me posicionei como candidato a vice. É o PT que fala, possivelmente o governo, o PMDB que fala que meu nome une, mas eu jamais me posicionei como vice. Desde o primeiro instante, disse: vice só pode ser definido no momento em que se defina a candidatura do PT. Não é agora que se pode falar em vice-presidência. Portanto, se há intenção de rifar, essa tentativa é equivocada.

Mas o senhor, pela sua experiência política, pelo número de mandatos, três vezes presidente da Câmara… O senhor sente um esboço de reação dentro do PT contra sua candidatura?

TEMER: É… Não é exatamente contra minha candidatura. Sinto que, nos últimos tempos, há outras ideias em relação à candidatura. Digo que elas não têm nada a ver comigo porque reitero que jamais me posicionei como tal. Mas sinto que há outros desejos, outras aspirações. Isso é perceptível pela leitura das revistas, dos jornais, de algumas declarações. Eu não tenho dúvidas disso.

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