Ciclo virtuoso já é realidade no país

por Victor Martins e Deco Bancillon, Correio Braziliense

Alta do emprego turbina as vendas do varejo, que faz mais pedidos à indústria

A recuperação da economia brasileira, detectada desde o segundo trimestre, parece ter retomado o caminho, a partir de setembro, do ciclo virtuoso entre produção e consumo. Dados divulgados ontem em relação ao desempenho do comércio e da indústria confirmam o cenário: crescimento de vendas combinado com aumento da atividade fabril no país. No varejo, as evidências são de que a crise é passado. O indicador da atividade comercial medido pela consultoria Serasa Experian registrou uma alta de 7,1% em outubro, na comparação com o mesmo mês de 2008 — a maior taxa desde dezembro. Na indústria, foi a primeira vez, desde setembro do ano passado, que três de quatro indicadores — emprego, horas trabalhadas e faturamento — registraram, simultanemante, variação positiva, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Em setembro, segundo a entidade, os três indicadores da indústria tiveram um forte movimento de recuperação ante a crise que abalou economias de todo o mundo. O desempenho manufatureiro depende de bons resultados para emprego, horas trabalhadas, faturamento e utilização da capacidade instalada. E um exemplo é o indicador de horas trabalhadas, que registrou, em setembro, crescimento de 0,4% ante agosto, que havia mostrado retração de 0,3% ante o mês anterior, na série com ajuste sazonal (condição de tempo). A melhora na atividade industrial está condicionada ao aumento da demanda alimentada pelo comércio. Ao que indicam os números do setor, o crescimento também seguirá no último trimestre do ano.

Em outubro, na comparação com setembro, houve alta de 1,3% na atividade comercial no país, segundo a Serasa. A melhora dos resultados foi puxada pelo segmento de móveis, eletroeletrônicos e informática, do qual fazem parte os produtos da linha branca com isenção de Imposto Sobre Produto Industrializado (IPI). Segundo o gerente de Indicadores da Serasa Experian, Luiz Rabi, outubro foi um mês atípico. Ele acredita que antes do anúncio de continuidade da desoneração para geladeiras e fogões, o consumidor correu às lojas para não perder os preços mais baixos. “Foi um efeito semelhante ao dos veículos em setembro. Quando ficou próximo o fim da redução e IPI, houve um aumento grande nas vendas”, explicou.

Com o desempenho das vendas em outubro, a alta acumulada no ano para o comércio já atingiu 10,3%. Veículos(1) e peças tiveram resultado negativo na avaliação mensal, recuo de 0,9% — uma queda natural que, segundo Rabi, ocorreu em função do fim da desoneração total do IPI para os carros. Já na comparação entre outubro e igual mês de 2008, o incremento foi de 20,4%. “Em outubro do ano passado a crise já tinha atingido o país e a comparação é com uma média muito baixa. Por isso o desempenho tão alto”, explicou o executivo da Serasa.

Demanda
Normalmente, ao perceber o aumento da demanda, o empresário da indústria costuma pagar horas extras ao trabalhador de chão de fábrica(2), em vez de realizar uma nova contratação. “Agora, para que se possa caracterizar com mais clareza essa recuperação (das horas trabalhadas), são necessários mais dois resultados positivos para o indicador. E acreditamos que eles virão”, diz o gerente de política econômica da CNI, Flávio Castelo Branco. No quesito emprego, a segunda etapa do investimento, houve bom resultado em setembro. Variou positivamente em 0,2%, na comparação com ajuste, ante agosto. Foi a terceira alta ininterrupta do indicador, que havia registrado perdas em oito dos doze meses terminados em julho. Também no que se refere ao faturamento das indústrias, verificou-se alta em setembro, de 1%. Em agosto, esse indicador havia se retraído 0,4% ante julho.

Setembro foi o mês em que o indicador de utilização da capacidade instalada (UCI), que vinha mostrando variação positiva na comparação de um mês com o outro imediatamente anterior, mostrou recuo. Desde o início do ano, apenas em janeiro e junho verificou-se redução do indicador, que reflete o espaço de que as indústrias dispõem para aumentar a produção sem a necessidade de ampliar o parque industrial e investir em máquinas e equipamentos. A falta de capacidade ociosa abre espaço para a inflação. “Pelo lado da indústria”, reflete Castelo Branco, “não há risco de inflação”. A avaliação da CNI é de que o atual patamar da capacidade instalada indica que a atividade industrial vem se fortalecendo sem pressionar a capacidade produtiva.

Otimismo
Os dados da economia em recuperação se refletem no otimismo do consumidor. Segundo o Índice Nacional de Confiança (INC) do Consumidor, taxa medida pela Associação Comercial de São Paulo em conjunto com o instituto Ipsos, cresceu em um ponto a confiança das pessoas físicas em outubro. De todas as regiões analisadas, a Nordeste foi a única que registrou recuo, uma queda de seis pontos. As regiões Sul, Sudeste e Norte-Centro Oeste seguiram na trajetória contrária e marcaram alta, sendo a terceira figura como a mais otimista, com 156 pontos. Na separação por renda, a classe C é a mais confiante — obteve alta de dois pontos na comparação mensal e chegou aos 147 pontos. “De um modo geral a atividade no comércio se recuperou. Podemos dizer que para esse setor da economia a crise acabou”, disse Rabi.

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*