Brasil é o melhor lugar para investir, afirma o americano Sam Zell

O mago dos imóveis vai investir em infraestrutura no Brasil
Sam Zell quer aproveitar as oportunidades de negócios que surgirão com a Copa do Mundo e a Olimpíada

Por Patrícia Cançado – O Estado de S. Paulo

Quando comprou ações da Gafisa pela primeira vez, há cinco anos, o mega investidor americano Sam Zell desembolsou US$ 55 milhões para ficar com um terço da companhia. Na época, poucas pessoas arriscariam dizer que o mercado imobiliário mudaria tanto em pouco tempo. Zell começava, ali, a eleger o Brasil como o melhor lugar do mundo para investir. Depois de injetar US$ 500 milhões em seis empresas brasileiras – metade do dinheiro aplicado por seus quatro fundos no mundo -, Zell agora quer “alargar” o conceito de mercado imobiliário. “Nós somos conhecidos mundialmente como investidores imobiliários. Mas a verdade é que 70% dos nossos negócios não são nesse mercado”, disse Zell ao Estado (leia entrevista abaixo). “O Brasil é o melhor lugar do mundo para investir. Em qualquer área.”

No radar de Zell, entra qualquer negócio ligado à infraestrutura. Ele quer aproveitar as oportunidades que surgirão com a Copa do Mundo, em 2014, e a Olimpíada, que acontecerá no Rio de Janeiro dois anos depois. “Podemos investir em estádios, aeroportos, transporte público e hotéis. À medida que o Brasil cresce, mais oportunidades vão aparecer”, diz Gary Garrabrant, sócio de Zell na Equity International (EI), empresa de investimentos fora dos Estados Unidos. “De tempos em tempos nós conversamos com as construtoras brasileiras sobre infraestrutura e como nós podemos participar disso.”

Em hotelaria, por exemplo, a ideia é investir em unidades de padrão econômico. “Não há espaço para muitos hotéis de luxo no Brasil”, diz Garrabrant, no lobby do hotel Fasano, em São Paulo. “Faltam hotéis de classe média no Rio de Janeiro.” Eles também cogitam entrar no negócio de fazendas, a exemplo do que fez seu concorrente Elie Horn, o controlador da Cyrela, na BrasilAgro – ela compra terras em estado bruto, investe em melhorias e tenta vender com lucro mais adiante.

Filho de imigrantes poloneses, Zell é considerado um visionário, uma espécie de Warren Buffet dos imóveis. Em 2007, pouco antes da crise imobiliária americana, vendeu a sua Equity Offices Properties por US$ 39 bilhões, o maior negócio no setor até hoje no mundo. Zell começou cedo, comprando apartamentos para colegas da Univesidade de Michigan, e construiu um império com mais de 220 mil propriedades espalhadas pelos EUA.

Nos últimos anos, sua imagem esteve mais associada ao investimento na Tribune Company, que publica os jornais Chicago Tribune e Los Angeles Times. A empresa pediu concordata há pouco mais de um ano. Na ocasião, Zell disse que fatores externos criaram a tempestade perfeita: economia dura e queda da receita publicitária. Com a crise financeira global em 2008, sua fortuna pessoal, que era avaliada em US$ 6 bilhões, caiu pela metade, segundo a revista Forbes.

EXPERIÊNCIA – No Brasil, ao contrário, os negócios vão bem. A sua experiência com imóveis, tanto nos EUA quanto no México – onde ajudou a criar a Homex, hoje a maior construtora popular do país – tem ajudado suas empresas a prosperar no setor.

Hoje, Zell não só é o maior acionista individual, com 13,66%, da Gafisa – uma das maiores incorporadoras do País, listada na Bolsa de Nova York -, como também se tornou o maior sócio da BRMalls, empresa líder no setor de shopping centers, e da Bracor, especializda em imóveis comerciais e industriais. Tem ainda participação relevante na AGV Logística, na construtora popular Tenda e na Brazilian Finance & Real Estate, de hipotecas residenciais, securitização de recebíveis e estruturação de fundos imobiliários. “Ser sócio de Sam Zell abre portas. Ele agrega imagem e conhecimento”, diz Fábio Nogueira, diretor da Brazilian Finance, último investimento do americano no País. A Equity International pagou US$ 125 milhões por uma fatia de 20,7% na companhia.

A Bracor acabou de receber mais uma rodada de capitalização dos sócios, que lhe dará cacife para investir R$ 1 bilhão. “A Bracor vai fazer quatro anos e já tem R$ 2,5 bilhões em ativos próprios. Sam Zell ajuda muito com a experiência anterior”, conta Carlos Betancourt, presidente da Bracor.

Na Gafisa e na Tenda, o investidor pretende injetar mais dinheiro para aproveitar o crescimento do mercado imobiliário local, especialmente na baixa renda. “Vamos apoiar Gafisa e Tenda com a maior quantidade de dinheiro possível. Não vamos comprar mais empresas residenciais, mas criar gigantes no setor”, diz Garrabrant. “Sam Zell teve uma enorme importância na definição das estratégias que levaram a Gafisa a ser o que é hoje”, afirma Wilson Amaral, presidente da Gafisa.

Zell só participa das grandes decisões. Ao Brasil, vem uma ou duas vezes por ano. Os executivos da EI, Garrabrant e Thomas McDonald, tem assentos nos conselhos das empresas, o que exige visitas mais frequentes. Na última viagem ao Brasil, Garrabrant falou pela primeira vez com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Foi apresentar a sociedade com a Brazilian Finance e discutir oportunidades de negócios.

Por que o Brasil é a bola da vez, segundo o mega investidor:

1 – Com mais de 190 milhões de habitantes, o Brasil tem escala para investimentos

2 - É autossuficiente em energia elétrica e um país rico em recursos naturais

3 – É politicamente estável. Serve de exemplo para toda a América Latina

4 – Tem um governo economicamente conservador e socialmente progressista

5 – Tem executivos de primeira linha, o que é difícil achar em outros países onde invisto

Quem é Sam Zell – Filho de imigrantes poloneses, Sam Zell nasceu em Chicago em 1941. Formado em direito pela Universidade de Michigan, o investidor começou comprando imóveis para colegas de faculdade

Criou um império com 220 mil propriedades nos EUA, vendido em 2007 para o fundo Blackstone por US$ 39 bilhões

A Gafisa foi seu primeiro investimento no Brasil. Pagou US$ 55 milhões por um um terço da construtora. Hoje é sócio de seis empresas no País

”Nós vamos agarrar todas as oportunidades”
Estrategista típico, Sam Zell compara o Brasil ao México de alguns anos atrás e fala sobre seu investimento em mídia

O primeiro encontro de Sam Zell e o empresário Carlos Betancourt, hoje um de seus sócios no Brasil, durou apenas sete minutos. Antes que o brasileiro terminasse sua apresentação, Zell pediu que ele procurasse seus executivos em Chicago. Um ano depois, em 2006, os dois fundariam a Bracor, empresa que compra, constrói e administra imóveis comerciais e industriais. Zell e Betancourt viraram amigos, mas os encontros continuaram curtos e produtivos. O episódio revela um traço marcante da personalidade de Zell. Dono de uma objetividade desconcertante, ele é o típico estrategista. “Estou no lugar certo na hora certa, sempre atrás de uma situação onde a minha presença vai servir para alguma coisa”, disse ao Estado, por telefone, o investidor, que é sócio de mais de duas dezenas de empresas. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que o Brasil é, na sua opinião, o melhor lugar do mundo para investir?
Em primeiro lugar, o Brasil tem escala. São 190 milhões de habitantes. É um país autossuficiente em energia. É politicamente estável. Acho que o fato de (o presidente) Lula ter tido tanto sucesso, apesar de ter vindo da esquerda, significa que o Brasil elegeu um esquerdista que os brasileiros amam. Ele governou sua economia de maneira conservadora e socialmente progressista. É uma combinação extraordinária de sucesso que serve de exemplo para toda a América Latina.

É possível comparar o Brasil com o México de alguns anos atrás?
Nós estivemos bastante envolvidos com o México. A diferença é que, no Brasil, há uma classe executiva que não existe no México. Nós estamos contratando gente no México, mas muitos voltam para trabalhar em negócios familiares. Enquanto no Brasil há muitos executivos talentosos e nós temos conseguido recrutá-los e temos nos dado muito bem. Os executivos que estão na Bracor (Carlos Betancourt), BRMalls (Carlos Medeiros) e Gafisa (Wilson Amaral) são de classe mundial e difíceis de achar em outro país.

O sr. pretende investir em outras áreas, como em infraestrutura?
A resposta para essa pergunta é: nós temos muito fé no Brasil e nós vamos investir. É um país maravilhoso, que tem recursos naturais, auto suficiência energética, é independente. E tem uma grande população que está em crescimento e vai ser um líder mundial no mundo emergente no futuro. Nós somos conhecidos mundialmente como investidores imobiliários. Mas a verdade que importa é que 70% dos nossos negócios não são no mercado imobiliário.

Eu não sabia.
No Brasil nós fomos acionistas majoritários do grupo GBarbosa, no Nordeste do Brasil. Vendemos a participação há cerca de um ano.

O sr. poderia detalhar seus planos para o Brasil?
Sou um profissional oportunista. Não faço planos, mas fico ligado nas oportunidades em que posso investir e ganhar. Eu não desejo ser limitado. Se tiver a oportunidade de investir em logística, shopping center, finanças, eu vou investir. O que posso dizer que nós vamos agarrar todas as oportunidades.

Metade do dinheiro da Equity International está investido no Brasil. O País continuará sendo o principal destino dos investimentos?
Eu volto para a mesma resposta que eu te dei antes. Nós somos oportunistas. A resposta é sim. Se as oportunidades estão no Brasil, nós estaremos lá para tirar proveito.

Qual a sua opinião sobre o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida?
Acho maravilhoso. Eu não poderia falar em detalhes, mas na ideia como um todo. Esse programa se expandiu pela classe média e a beneficia. Eu acho que vai ser fabulosamente bem sucedido no Brasil. O México tem um programa semelhante, que funciona muito bem. Ele é baseado no mesmo tipo de financiamento do Minha Casa, Minha Vida, que cabe no orçamento das pessoas.

O sr. vê algum risco de bolha no mercado imobiliário brasileiro?
Eu não vejo isso. Para ter um bolha, você precisa de financiamento ilimitado. É assim que nós chegamos a uma bolha nos Estados Unidos. E nunca houve financiamento ilimitado no Brasil. Então eu não acho que isso seja um problema real.

O sr. pretende investir em outras construtores residenciais, além de Gafisa e Tenda?
Eu não acho que vamos investir em outras companhias, mas nós devemos investir mais nessas companhias à medida que elas forem crescendo.

O sr. foi muito bem sucedido com os investimentos no mercado imobiliário nos Estados Unidos. Um de seus investimentos mais arrojados foi na Tribune Company, que publica o Chicago Tribune e o Los Angeles Times. Por que o sr. decidiu apostar nessa área?

Novamente, nós pensamos que poderia ser atraente e nós fizemos.

O sr. faria de novo?
Com certeza. Nós nunca achamos que fizemos a última transação. Depende do quanto as novas oportunidades possam ser corretas, boas.

Quando o Chicago Tribune deve sair da concordata?
Não sei, mas provavelmente nos próximos seis meses.

O sr. acredita que o mercado imobiliário americano está se recuperando?
Eu acho que está se recuperando, mas lentamente. Muitas coisas ainda vão acontecer.

Como o sr. divide seu tempo?
Eu sou um estrategista e estou no lugar certo na hora certa, sempre atrás de uma situação onde a minha presença vai servir para alguma coisa.

O que sr. faz nas horas vagas?
Ando de moto, esquio, leio, nado. Esse tipo de coisa me dá prazer.

E hoje em dia o sr. trabalha mais do que tem prazer ou isso está mudando?
Meu trabalho é meu prazer. Sempre um prazer.

Quantos anos o sr. tem?
Eu tenho 68. Sou um homem velho.

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